As constatações vêm de médicos do país que acompanharam tanto o surto inicial quanto os mais recentes. Segundo Qiu Haibo, um dos principais médicos de cuidados intensivos da China que ajudou no surto de Wuhan e agora atua no nordeste do país, os novos pacientes parecem carregar o vírus por mais tempo. Eles levam mais do que duas semanas para apresentar sintomas, também demora mais para testar negativo – e curados. Isso dificulta o trabalho de rastrear os casos e impedir a transmissão, já que aumenta o tempo que uma pessoa pode levar o vírus adiante, mesmo sem sintomas.
Além disso, os próprios sintomas são diferentes. Enquanto em Wuhan vários pacientes tinham órgãos como rins, coração e intestino afetados, os novos casos parecem ter quadros mais focados em danos aos pulmões, inclusive mais severos do que os do início da pandemia. Por outro lado, menos pacientes graves – cerca de 10% – chegam ao estágio crítico da doença e precisam de entubação. Ou seja, menos gente chega ao pior estágio da doença, mas quem chega enfrenta um vírus mais agressivo. Além disso, a febre – um dos principais sintomas citados como indício da doença – já não está tão presente como nos casos iniciais, enquanto a dor de garganta e a sensação de um mal estar geral integram agora a lista dos mais comuns.
Cientistas ainda não sabem explicar exatamente o porquê das diferenças. Uma das hipóteses mais forte é que a cepa do vírus que está causando a crise no nordeste do país seja diferente da que devastou Wuhan: análises genéticas sugerem que o vírus circulando pela China agora tenha vindo da Rússia, o terceiro país com mais casos no mundo (atrás somente do Brasil e dos Estados Unidos).
Mas, se não forem mutações, o que explica as mudanças observadas nos novos casos da China? Alguns acreditam que não é o vírus em si, mas o progresso nas pesquisas. Agora, temos mais informações sobre as infecções e podemos estudar a doença melhor, incluindo a progressão dela em fases iniciais. Em janeiro, pouco, ou nada, se sabia sobre o vírus, e é possível que muitos pacientes já estivessem infectados há semanas, sem sintomas. Além disso, no pico de infecções o sistema de saúde de Wuhan ficou tão sobrecarregado que a prioridade era salvar as vidas dos pacientes graves, e não havia tempo nem recursos para acompanhar os milhares de casos leves. Não é o que acontece agora, com muito mais pesquisas sendo feitas sobre a evolução da Covid-19.
Além disso, os novos dados são de um grupo seleto e pequeno de pacientes, e são meramente observacionais: não foram publicados em revista científica, nem obtidos segundo metodologia revisada por pares. Conforme a doença se espalhou pelo mundo, vários cientistas relataram novas informações sobre a doença, como sintomas raros e diferenças na progressão do quadro clínico. Ou seja, a doença por si só é variável de pessoa para pessoas: não dá para usar os novos casos da China como parâmetro para generalizar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário